quinta-feira, agosto 04, 2005

O Som na Música Tradicional Portuguesa

Aqui dá-se a conhecer parte da experiência pessoal do Avô Mokka e as ideias que lhe passaram sob a lustrosa careca, acerca do sensível tema do som dos nossos espectáculos de música tradicional. As opiniões são minhas e são discutíveis, como é evidente.

Vejamos:

As aprelhagens que temos visto, são de boa qualidade, mas aptas a grupos que tocam com baixos eléctricos e baterias com bombos de fibra. Grupos de música de baile, de rock ou de pimba. Esses grupos usam instrumentos com som muito equilibrado, muitas vezes tratado electronicamente e em que os baixos são fortes (quanto mais forte melhor), a batida é seca, os bombos são abafados para manter a batida forte e seca. Os médios são dados por instrumentos electrónicos (pianos eléctricos e sintetizadores MIDI), por acordeões (um som comprimido por natureza, tal como quase todos os instrumentos de palhetas), ou por guitarras eléctricas. Os agudos não são muito diferentes dos nossos.
Pega-se nesta combinação e dá-se-lhe muita reverberação, para dar ilusão de ressonância e depois comprime-se o som. Esta coisa da compressão tem muito que se lhe diga e tem tudo a ver com o problema presente.
O som comprimido quer dizer que todos os harmónios de baixo volume que vinham misturados na música são aumentados e, em contrapartida usa-se um limitador para reduzir os harmónios que vêm muito altos.
Este tratamento, quando usado com força, como acontece na música de baile, de rock ou pimba, torna o som muito fácil de tratar pelos amplificadores e colunas. Não provoca distorções, torna todo o som muito igual em volume, toca tudo muito mais alto e faz com que as pancadas dos baixos sejam ainda mais secas e fortes. No extremo desta linha está a música das discotecas.
Para esse tipo de som funcionar bem, usam-se grandes altifalantes, com grandes caixas de ressonância, para amplificar graves e sub-graves, previamente separados do resto do som por aparelhos chamados cross-overs.
Na música tradicional, temos uma carrada de instrumentos acústicos, alguns deles com grandes caixas de ressonância (Braguesas, Campaniças, Violões e Violas-baixo acústicas) com uma gama de harmónios que vai dos 20Hz aos 2KHz. Cortar som acima dos 100Hz é um crime porque arruina a sonoridade tradicional e o volume destes harmónios é muito elevado em quase todos os arranjos de música tradicional.
Quando este som chega aos amplificadores e colunas destas aparelhagens (vulgo PA) é uma destruição. Os graves derretem tudo. Muitos técnicos não conseguem fazer som porque não percebem o problema. Outros conseguem resolver parte do problema (como em Resende), mas o som fica muito mau, é tudo baixos com ressonâncias exageradas, uma mistura de música tradicional com som de Rock, mas com os sons todos embrulhados uns nos outros.
Nos Trovas à Tôa, isto ia dando com o JP em maluco, uma ocasião em que a mesa de fora não conseguia levantar o botão do volume apesar de estar a receber som da nossa mesa apenas no mínimo (-12Dbs).
Tivemos de pedir ao técnico de fora para desistir e fui eu para mesa deles. Tive de baixar o volume de graves até 1/4 na mesa e mandar diminuir no amplificador de graves 50% relativamente aos outros. Mesmo assim ainda foi preciso ir ao equalizador e baixar as frequências de graves e desistir de qualquer compressão.
Este paleógrafo (parece técnico, mas não é) serve apenas para deixar entrever a dificuldade que muitos grupos devem ter em contornar o problema. Acredito que a maioria dos grupos do nível dos Trovas, caia no erro de adaptar o seu som natural, brilhante e alegre, com toda a música muito bem definida (tal como se espera que seja a música tradicional) e acabe por ficar com um som sobrecarregado de graves, batidas fortes, alguns instrumentos eléctricos (o baixo é o primeiro) e com som dos instrumentos acústicos todo embrulhado e a sofrer de um fenómeno chamado "Interrupção Acústica" que dá cabo do som.
Em resumo:
1- Muitas vezes, não é o som do grupo que se ouve, mas sim o som que o PA transformou.
2- Para conseguir tocar em aparelhagens alugadas, os grupos modificam o som indevidamente.
3- Isto não é defeito dos técnicos porque não há quem dê formação direccionada para tratamento de som de instrumentos acústicos. Os técnicos que sabem são uma elite que leva uma pipa de massa aos estúdios para quem fazem serviço.
Isto não devia ser um problema para grupos do nível do Maio Moço, A Ronda dos Quatro Caminhos ou da Brigada Victor Jara, por exemplo que tem conhecimentos e equipamentos muito melhores que os meus para resolver o problema, mas (não querendo desvirtuar o grupo) notei um pouco deste defeito na Ronda há dois anos atrás e já tive notícias de que continua a notar-se. Em grupos do nível dos Trovas à Tôa (100% amadores de baixo custo), isto pode ter um efeito bastante nefasto, principalmente se não conseguirem reconhecer o problema.

O ideal seria usar mais colunas, menos colunas de graves, usar uma amplificação neutra (em que o volume de som de graves médios e agudos seja o mesmo a zero Dbs). No fundo, parecido com os monitores de estúdio apenas com mais força. Isto é normalmente mais barato e permite investir na qualidade dos altifalantes e com qualidade digo Brilho, Resolução, Definição e Verdadeira Profundidade de som.

Sempre que não seja possível, cabe aos grupos terem o cuidado de se lembrarem que o equipamento serve para melhorar o som. Não é a música que tem de se adaptar ao equipamento. Antes de fazer o som, temos de obrigar o equipamento a reproduzir o som como se ele (equipamento) lá não estivesse, nem que tenham de cortar frequências até pontos inacreditáveis (é para isso que há botões que chegam ao "desligado"). Só depois disso é que se pode começar a compor o som e a dar a "ambiência" desejada. Os erros neste ponto saem sempre muito caros.


Isto é apenas o conselho de um tolo que se vai desenrascando. Deve haver soluções melhores e gostaria que mas dessem a conhecer.


ass. Avô Mokka (http://estudiosmokka.pt.vu)
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